março 19, 2008

Barack Obama, em 1952

Em 1952, a campanha para a Casa Branca estava ao rubro. Do lado republicano, o herói de guerra Dwight D. Eisenhower, cujo slogan de campanha “I Like Ike”, aliado à sua enorme popularidade, esmagavam o candidato democrata Adlai Stevenson, um intelectual, orador brilhante, de quem naturalmente os norte-americanos desconfiavam. Porém, tudo mudou no dia 1 de Maio de 1952, quando Adlai Stevenson, descansando a meio de um comício, foi fotografado, sem saber, por Bill Gallaher, do “The Flint Journal”. A fotografia mostrou que o intelectual distante tinha um buraco nos seus sapatos gastos, e isso bastou para que os eleitores passassem a vê-lo como “um deles”, um homem do povo. A fotografia não foi no entanto suficiente para mudar o sentido de voto, tendo sido a Casa Branca ganha folgada e previsivelmente por Einsenhower, mas ficaria como um ícone do fotojornalismo e, um ano após o comício em Michigan, conquistaria o Pulitzer. O que é que isto tem que ver com Barack Obama, perguntam. Esta semana foi divulgada uma fotografia do pré-candidato democrata, descansando depois de um comício em Rhode Island, onde Barack Obama tem os pés em cima da mesa e, coincidência, os seus sapatos tem, não um, mas dois enormes buracos. A fotografia foi supostamente tirada por Callie Shell, da Aurora Photos, sem que Barack Obama tivesse notado. Tal como Adlai Stevenson. Acreditam? Eu não. Barack Obama vende a imagem do “homem de fora”, o homem do povo que luta contra o aparelho democrata. E eu sublinho a palavra “vende”. Apesar de pouco mais ter prometido do que sonhos e intenções piedosas, os norte-americanos revêem-se em Barack Obama precisamente porque não é um Kennedy, não é um Clinton, não é um Bush, não faz parte da oligarquia politica dos EUA. Os europeus, crédulos como só eles sabem ser, engolem o isco. Barack Obama pode vir a ser um bom presidente (embora eu ache que, se ganhar as primárias candidatas, John McCain vai ganhar as eleições de 2009), mas é tudo menos “natural”. O que, pessoalmente, até me descansa. De boas intenções está o Inferno cheio.

agosto 10, 2007

"Doh!" digo eu

Em tudo o que é jornal ou blogue, vejo comentários laudatórios ao “Simpsons – The Movie”. Ainda não vi o filme. Ou melhor, não vou ver o filme. Nunca percebi muito bem o fenómeno Simpsons (nisto, discordo do meu colega Nuno Markl). Sim, a série é bem escrita. Sim, os bonecos amarelos criticam a sociedade norte-americana contemporânea de uma maneira arejada. Sim, as referências culturais da série são por vezes bem esgalhadas. Mas nada do que foi feito até agora nos Simpsons se aproxima sequer àquela que, para mim, é e sempre será a melhor série de comédia de sempre: All In The Family. Aliás, todo o núcleo familiar dos Simpsons é claramente inspirados nas personagens da mítica sitcom na CBS. Se juntarem short minded atitude do Homer e o mau feitio do Bart, têm o Archie Bunker. Se juntarem os bons sentimentos da Glória e a inclinação liberal de Esquerda do Michael Stivic têm a Lisa Simpson. E mulher do Homer não passa de uma Edith Bunker um pouco menos lerda. Até o famoso sofá onde o Bart Simpson passa a vida é igual à mítica poltrona do Archie Bunker, que está exposta – como são diferentes os museus norte-americanos dos portugueses – no Smithsonian Institution (não estou a acusar os Simpsons de plágio, tudo isto é mais ou menos assumido pelo próprio Matt Groening, que fez mesmo, ao que sei, um episódio dos Simpsons dedicado ao All In The Family). Acontece que uma coisa é falar de homossexualidade, droga, álcool e preconceitos raciais em meados dos anos 80, quando começou os Simpsons, altura em que tudo era possível (se não acreditam, vejam o delirante Bachelor Party, de 1984, em que o Tom Hanks acaba enfiado numa orgia de sexo, álcool e drogas com um burro). Outra coisa é fazê-lo no início dos anos 70. Para mais, em termos de politicamente correcto, o Bart Simpson, comparado com o Archie Bunker, é o Daniel Sampaio (amarelos por amarelos, fico com o Duckman, esse pato detective que faria corar de vergonha o próprio Dave Chapelle, a única série de animação que adorei desde que deixei de ser criança). Querem perceber a diferença entre os Simpsons e o All In The Family. O Homer Simpson passa os episódios a dizer “doh!”. O Archie Bunker passa os episódios a dizer coisas como “the atheist religion don't believe in the bible” ou – preparem-se para Archie Bunker no seu melhor - “California is the home of where is gonna occur the world's worst cat-a-strofe… sittin' on a shelf out there… three states on that shelf, California, Oregon and Missouri. The day of the biggest earthquake… those three states are gonna be shoved right offa that shelf there. They call that the 'Continental Divide'. The Pope knew about this years ago. He said it was St. Andrew's fault”. Rest my briefcase, como diria o velho Archie.

PS: Para perceberem um pouco melhor a minha adoração por All In The Family, vejam, por exemplo, isto. Nem o Howard Hawks no Is Girl Friday faria melhor.

maio 24, 2007

De nada, Jimmy!

Acabei de receber o seguinte e-mail na caixa de correio do meu blogue:

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Devido à linguagem utilizada, em corrente de consciência, e ao nome da pessoa, Anonymus, com claras ressonâncias latinas, apenas posso concluir uma coisa: o meu blogue é tão bom que até o James Joyce o lê.
Um Émile Zola em cada jornalista português

O caso DREN, a liberdade de expressão, blá, blá, blá. Não se tem ouvido outra coisa nos últimos dias. O problema não está na excelentíssima directora da DREN. O problema, se me permitem, está na inocência do professor suspenso, que pensou que estava no restaurante O Barbas. A inocência é quanto mais grave quanto o referido professor já foi deputado do PSD. Os jornais clamam e não não entendem como é possível que tal episódio ocorra na função pública. Precisamente, o episódio apenas poderia ocorrer na função pública. Quem quer que leia as palavras dos jornalistas portugueses (um inglês que esteja na praia da Luz para linchar o Robert Murat, por exemplo) fica com a impressão que esta é uma máquina burocrática independente do poder político. Não é. Nunca foi. Nunca há-de ser. Os directores da DRE são, como toda a gente sabe, cargos de nomeação política. Tal como os directores que milhares, milhões de outras delegações, direcções-gerais, institutos, empresas dependentes do Estado. A DREN não serve para servir a educação no Norte do país. A DREN serve para servir o Ministério da Educação. A directora da DREN, nomeada por este Ministério da Educação, perseguiu, enxovalhou e demitiu um ex-deputado do PSD?! Meu Deus, em que mundo é que nós vivemos?! Que função pública é esta?! É a que temos desde o Estado Novo, que o PREC manteve igual, que o Bloco Central manteve igual, que todos os Governos democraticamente eleitos mantiveram igual, porque lhes convêm. O escândalo não é que um episódio destes aconteça. O escândalo é que um episódio destes seja, para os jornais, um escândalo.
Qual George Steiner, qual quê!

Que o Mário Lino esqueceu as suas raízes proto-comunistas já se sabia, ainda que se possa maldosamente encontrar, no seu iberismo, resquícios do universalismo comunista de Marx. Mas se dúvidas houvessem, eis que Mário Lino as dissipa esta semana. Para ele, a Margem Sul não tem cidades, não tem escolas, não tem hospitais, não tem hotéis, não tem comércio, não tem habitantes. Numa palavra, não tem vida. Nada. Zero (faz pensar para que é que serve a Ponte 25 de Abril, afinal de contas). Para ele, a Margem Sul é, passo a citar, “um Sahara”. De uma penada, Mário Lino acaba com dezenas de anos de hagiografia neo-realista marxista, segundo a qual, na cartilha de Soeiro Pereira Gomes, a Margem Sul pululava de pulsão de vida, crianças sonhadoras e descalças, homens honrados com graxa na cara, mulheres esforçadas que acumulavam o trabalho na fábrica e a educação da prole sonhadora e descalça, relações de solidariedade social no meio das pracetas anónimas, enfim, o Portugal mais profundo e verdadeiro. Afinal, tudo é mentira. Nem crianças sonhadoras, nem proletários, nem mães coragem, nem nada. Um Sahara. E no meio, quando muito, quais berberes, os Da Weasel a tocar as suas cantilenas. O que Mário Lino diz é que todos esses romances neo-realistas execráveis, afinal de contas, eram a mais pura ficção. Soeiro Pereira Gomes não se limitava a relatar, em linguagem sofrível, aquilo que via pela janela. Não senhor, Soeiro Pereira Gomes e companhia criaram um mundo imaginário, rico e complexo, tal como William Faulkner fez, quando criou o Yoknapatawpha County. O aeroporto até pode ser construído na Ota para cumprir um desejo pessoal do Mário Lino, já não me importa. O que eu sei é que passei anos a pensar que a literatura nacional do século XX apenas tinha produzido um talento razoável, Vitorino Nemésio, para descobrir, graças ao Mário Lino, que afinal produziu um génio universal, Soeiro Pereira Gomes. O que prova que Mário Lino está mal aproveitado. O seu lugar é no Ministério da Cultura.
O pecado capital de Carmona Rodrigues

E pronto, o Carmona caiu. Eu apoiei o Carmona Rodrigues nas últimas eleições autárquicas, não porque nutra uma imensa simpatia pelo homem, o exemplo acabado do tecnocrata quer nunca deveria entrar na política, mas porque antipatizo profunda, visceralmente com o Manuel Maria Carrilho, o maior bluff da cultura nacional, a prova acabada da origem das espécies proposta por Darwin (quando se ouve o Carrilho falar, até o mais fanático criacionista fica convencido de que descendemos, de facto, dos macacos). O caso Bragaparques está demasiadamente mal esclarecido para ter uma opinião formada sobre a influência do engenheiro Carmona Rodrigues nele. Tenho uma opinião, isso sim, sobre a maneira politicamente desastrosa como o geriu (é o que dá apoiar tecnocratas, tique que nos chegou do PREC e das experiências de auto-gestão, que levaram, como se lembram, uma espécie de junta de salvação nacional, formada por engenheiros, arquitectos, etc, numa palavra, gente de bem, a seleccionadores nacionais no Mundial do México, em 1986, com o resultado que se sabe). Mas existe uma razão para eu censurar Carmona Rodrigues e não apoiar a sua reeleição. O homem ainda não pagou uns tostões que a CML deve à Maria Lopo de Carvalho, que tem alguma espécie de empresa de prestação de serviços (leia-se, aulas de Inglês) a 11 agrupamentos escolares da região. Ela estrebucha, talvez com razão. O problema, o que eu não posso perdoar ao engenheiro Carmona Rodrigues, é que o facto de se encontrar mal de finanças possa levar Maria Lopo de Carvalho a virar-se para a sua segunda fonte de rendimentos: a literatura. Por mim, não me importo de saber que uma ínfima parte dos meus impostos acabam no bolso da Maria Lopo de Carvalho, se isso significar que a senhora permanece entretida a brincar aos CEO e não escreve coisas como “Adopta-me”, “Palavra de Mulher”, “Que bicho te mordeu?” ou essa espantosa obra-prima da literatura naif (escola criada pela própria escritora), “A Minha Mãe é a Melhor do Mundo”. Os prédios históricos podem cair, o trânsito na cidade pode ser caótico, é normal, mas se um grupo de autarcas não consegue fazer uma coisa tão simples como impedir que escritores medíocres exerçam o seu ofício, então para que serve? Se o António Costa pagar a dívida pendente da CML à Maria Lopo de Carvalho, tem o meu voto.

março 21, 2007


Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal

Numa semana em que voltam a casa mais de 100 militares portugueses que valentemente cumpriram o seu dever patriótico na Bósnia-Herzegovina, resolvi analisar o site do Estado-Maior General das Forças Armadas e fazer um balanço dos últimos 15 anos anos de bravas missões portuguesas no estrangeiro.


No coração das trevas
Em 1991 enviámos uma aeronave C-130 para “efectuar o resgate de cidadãos nacionais ameaçados pela situação interna no Zaire”, ao abrigo do “Interesse Nacional”. Não sei quantos portugueses viviam no Zaire à altura, mas suspeito que não era necessário enviar uma aeronave C-130. Bastava terem enviado um táxi.


“Aqui é o Chissano, onde é que estás?”
De 1993 a 1994 estivemos em Moçambique, para “ajudar a implementar o Acordo de Paz assinado pelo Presidente da República de Moçambique e o Presidente da Resistência Nacional Moçambicana”, para o que levamos um “batalhão de transmissões”. Rezam as crónicas militares que, se o referido batalhão não tivesse levantado meia dúzia de postes telefónicos, arriscando a vida temerariamente, o Presidente da República de Moçambique e o Presidente da Resistência Nacional Moçambicana nunca teriam entrado em contacto e a paz não teria sido possível.

Crocodilo eu sou, vou-te devorar
Em 1998 chega a “Operação Crocodilo”, que visava “efectuar o transporte para Portugal de civis nacionais e de países amigos residentes na Guiné-Bissau”. Seguindo a terminologia politicamente-correcta-oficial-genealógica à risca, deixaram ao abandono cidadãos cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos e guineenses, uma vez que, tecnicamente, não eram de “países amigos”, mas sim de “países irmãos”.

Operação Mário Lino
De 11 de Janeiro de 2000 a 4 de Abril de 2001 estivemos integrados na “Albania Force”, para “garantir a utilização do aeroporto de Tirana”. Entre as muitas medidas tomadas pelo exército português, realçam-se os estudos que provaram que a capacidade do aeroporto de Tirana esgotaria em 2008 e a tentativa de convencer o governo albanês a construir um novo aeroporto em Skopje, a vários quilómetros de distância da capital albanesa.


Mau tempo no canal
Em 2004 estivemos no Mediterrâneo Oriental, a fim de “estabelecer presença naval na região a fim de demonstrar a determinação da OTAN no combate ao terrorismo”. Como é que isto sucedia? Simples. Os membros da Al-Qaeda, de passagem pela Canal do Suez, a caminho do Sudão, viam a fragata Vasco da Gama no meio da água e finalmente percebendo a “determinação da OTAN no combate ao terrorismo”, suficiente para tirar a Vasco da Gama de Cacilhas, resolviam desistir do fundamentalismo islâmico, abraçar o judaísmo e cortarem, ali mesmo, o prepúcio. Mas, para além disso, as forças portuguesas também estavam lá para vigiar “as aproximações ao Canal do Suez, contribuindo para o reconhecimento de um vasto panorama marítimo”. O referido “vasto panorama marítimo” foi reconhecido, após passarem três meses a olharem para um canal com 365 metros de largura.

“Nunca mais é fim do mês!”
Em 2000 chega a “Operação Save”, em Moçambique, que visou, de 5 de Março a 5 de Abril de 2000, “prestar apoio humanitário às vitimas das cheias neste país”, tendo Portugal enviado um “destacamento de fuzileiros navais”. Como a tragédia humanitária em questão era uma cheia, todos eles eram de Santarém. Note-se porém que, oito anos antes, fomos “efectuar a evacuação de Angola de cidadãos nacionais e outros europeus”, de 30 Outubro a 30 de Novembro. Ou seja, para o exército português, um mês chegava e sobrava para tratar dos assuntos em África. A escola de Almeida de Santos continuava ainda em vigor nas Forças Armadas.

Se outros calam, cantemos nós
Desde Setembro 1999 que estamos a “providenciar segurança e manutenção da lei e ordem em Timor-Leste”. Díli pode ainda ser propriamente uma Gstaad, mas pela menos já não é uma Amadora. e Roma e Pavia não se fizeram num dia.


Vasculhando os obituários
Desde 2002 que estamos na ex-Jugoslávia para ajudar à “verificação no terreno do cumprimento dos sucessivos acordos estabelecidos entre as partes em conflito”. Eis como a coisa funciona: os militares portugueses vasculham as ruas das cidades sérvias, croatas, montenegrinas e kosovares em busca de cadáveres mutilados. Quando não os encontram, está cumprida a missão.


“Concorda com a interrupção voluntária do colonialismo, etc e tal?”
Desde Setembro de 1991 que estamos no Saara Ocidental, para supervisionar “o cessar-fogo entre as Forças Armadas do Reino de Marrocos e a Frente Polisário e efectuar um referendo para determinar o futuro do território”. Estando o processo a ser liderado por portugueses, posso garantir duas coisas: primeiro, que mais tarde ou mais cedo o referendo vai mesmo ser feito. Segundo, que este não vai ser juridicamente vinculativo.

Sempre é melhor do que o Iraque
Mandatados pela NATO, estamos no Afeganistão para “assistir a Autoridade Transitória do Afeganistão a manter a segurança na sua área de responsabilidade”. Sendo que todo o país é controlado por diversos senhores da guerra e pelos Taliban, sendo a “área de responsabilidade” da Autoridade Transitória do Afeganistão o palácio presidencial e respectivo jardim, mais coisa, menos coisa, não admira que tenhamos estacionada no Afeganistão uma “equipa de bombeiros”. Estão lá para manter a segurança do presidente do Afeganistão, caso o seu fogão exploda, bem como do seu gato, caso suba a uma palmeira. Estamos ainda no Afeganistão para “prestar assistência humanitária ao governo interino do Afeganistão”. Quanto a isto, apenas uma nota: quando um Governo precisa de ajuda humanitária, talvez seja altura de desistir e voltar para casa.

“É dispersar!… É dispersar!…”
Desde 1999 que estamos no Kosovo, para “verificar a retirada das forças sérvias da província e estabelecer a presença internacional”. Para “estabelecer a presença internacional” não é preciso ser nenhum John Rambo. Basta estar lá. Tanto serve um comando como um cabo-raso a cumprir o serviço mínimo obrigatório. Ainda assim, parece que as forças militares portuguesas estão a fazer um competente serviço ao sentarem-se na fronteira e contarem quantos sérvios a atravessam.


Isso é um arma na tua burqa ou só estás contente por me veres?
Entre Agosto e Setembro de 2001 estivemos no Kosovo, integrados na “Task Force Harvest”, para “desarmar grupos étnicos albaneses e destruir material capturado”. A missão foi um sucesso, tendo os militares portugueses conseguido destruir, nesse único mês, mais de 2000 sacholas apreendidas aos agricultores albaneses.


Sauna ou bunker? Eis a questão...
Desde 1992 que forças militares portuguesas estão intermitentemente em países como a Bósnia-Herzegovina, Cazaquistão, Croácia, Geórgia, Rússia, Suécia e Ucrânia para “garantir a verificação dos acordos sobre controlo de armamentos” assinados pelos países da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). De entre todos os países, aquele que provavelmente deve merecer mais atenção dos nossos inspectores militares é a Suécia, esse perigoso país beligerante, governado por dementes fundamentalistas religiosos.

março 01, 2007

O presidente Almeida Santos



Ontem, na “Quadratura do Círculo”, Almeida Santos saiu-se com duas tiradas antológicas, daquelas a que sempre nos habituou (aliás, Almeida Santos é daqueles exemplos que contrariam a visão quase unanimemente aceite que antigamente é que existiam bons políticos e o Parlamento nacional era uma espécie de Atenas da antiguidade). Primeiro, Almeida Santos brindou-nos com esta máxima de La Palisse, atirando as suas eventuais responsabilidades na pífia descolonização para baixo do tapete: a culpa da descolonização, diz ele, é ter havido colonialismo in the first place. A culpa da descolonização, portanto, é de D. João II. O homem, há que reconhecê-lo, é um portento de silogismos. Pela mesma ordem de ideias, os responsáveis pelo “acidente” de Camarate são os irmãos Wright, que inventaram os aviões, malditos sejam. Depois, Almeida Santos, falando dos mortos e estropiados da guerra colonial, avançou com esta visão história original e brilhante: a ele, Almeida Santos, senador da Nação, não o incomoda muito os milhares e milhares de jovens que morreram a defender terras que nunca tinham conhecido e que não lhes diziam nada, uma vez que, desde o 25 de Abril, já morreram mais portugueses nas estradas e sobre isso ninguém fala. Antes de tudo, saúdo a conversão do Almeida Santos numa espécie de Manuel João Ramos, o presidente dessa obscura Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados. Depois, saúdo também que Almeida Santos viva fora do século e se recuse a ver televisão. Eu, que por necessidade profissional vejo televisão, ando a chupar há anos com campanhas de prevenção rodoviária imbecis e ineficientes. Mas, para Almeida Santos, as campanhas, as operações de Natal, Carnaval, Páscoa, Verão e feriados, com todo histerismo dos noticiários à volta delas, não são suficientes. Como não parecem ser os milhares de manchetes que o “Correio da Manhã” já dedicou ao tema das mortes nas estradas. Não senhor. Para Almeida Santos, os portugueses deviam tratar esse tema ignorado ainda mais profundamente, em vez de passarem a vida a discutir, na televisão e nas tascas, a guerra colonial. Tudo isto em pouco menos de cinco minutos, numa única intervenção. É obra. E não podia deixar de referir a maneira tocante como Jorge Coelho se referiu a Almeida Santos como “o meu presidente” e este lhe deu duas ou três palmadinhas no joelho, qual Don Corleone a acariciar as bochechas dos seus protegidos. Para terminar, fiquei espantado com a confusão que o Lobo Xavier fez entre Jorge Sampaio e Almeida Santos, referindo-se à arbitrariedade da dissolução da Assembleia da República, no tempo do Governo PSD/CDS liderado por Santana Lopes, pelo “presidente da República Almeida Santos”. Duas referências a Almeida Santos como “presidente” em menos de vinte minutos. Será uma vaga de fundo PS/CDS para derrubar Cavaco Silva? Pelo sim, pelo não, já fiz as malas e deixei o passaporte à mão.

fevereiro 13, 2007

Portugal deixou de ter 1o milhões de poetas e passou a ter 10 milhões de humoristas


Estreou o novo programa do Herman José, o Hora H, que tenho o prazer de escrever, juntamente com o meu irmão (o António Marques), o Francisco Palma, o Nuno Markl, o José de Pina e o Filipe Homem Fonseca. As reacções, era previsível, foram arrasadoras. Acho que desde o Pina Manique que tantos portugueses não se deram ao trabalho de falar mal de alguém. No blog do Markl, um energúmeno chegou a dizer que preferia cortar a planta dos pés com uma lâmina de barbear a ver o Hora H. Eu aconselhava-lhe o pescoço, mas os pés também servem. O que acontece é que o Herman José é uma espécie de Mário Soares do humor português, alguém de quem se gosta de dizer "devemos-lhe muito, coiso e tal, mas…". Naturalmente, a expectativa e desejo gerais era que um regresso do Herman José fosse como a terceira candidatura do Mário Soares à Presidência da República, com a Maria Rueff no lugar da Joana Amaral Dias. Infelizmente para esses paladinos do humor que andam por aí, nessa coisa chamada blogosfera, não foi. O Hora H é um programa perfeito? Não. É o melhor programa do Herman José? Não. Nem pode ser. Começou agora mesmo. Os críticos do Hora H fazem-me lembrar os apoiantes do "Não" no referendo ao aborto, que acreditam que um feto de meia dúzia de semanas é um ser humano completo, à semelhança, digamos, do Winston Churchill. Não é. Nem o Hora H é um programa de humor. Há-de ser. Começou agora a ser. Mas já há quem queira abortá-lo e atirá-lo para um penico. Os autores são todos uma merda, o Herman José está acabado, blá, blá, blá. Lembro o exemplo do Zinedine Zidane. Também ele estava acabado para o futebol e o Mundial 2006 apenas serviria para entronizar o Ronaldinho Gaúcho como melhor jogador do mundo. Acontece que o acabado Zidane foi, de longe, o melhor jogador do mundial e continuaria a ser, se estivesse para aí virado, apesar dos seus veneráveis 34 anos de idade, o melhor jogador do mundo. Isto irrita muita gente. Mas é assim mesmo. Quanto às plantas dos pés, espero que a lâmina de barbear estivesse enferrujada.

janeiro 07, 2007

MOSTRÁ-LO EM CUECAS É "EUROPEU", MAS ENFORCÁ-LO?! MON DIEU, ISSO É BÁRBARO!
Definitivamente, não entendo os comentadores nacionais. Semana sim, semana não, lemos as mesmas pias palavras, segundo as quais não compete ao “prepotente” e “autista” Ocidente ditar as suas leis e a sua maneira de viver a outros povos, nomeadamente africanos e árabes. Para esses comentadores, a tentativa neo-conservadora de aplicar o “método dominó” (que acabou por fazer desaparecer a Cortina de Ferro) no Médio Oriente era um estúpido erro, que apenas poderia ter saído da cabeça de um fascista como George W. Bush. Para mim, a Democracia de facto não é aplicável ao Médio Oriente (ou aos países africanos), porque, por razões diferentes, nada na História destes povos a favorece. Tal como nada na História da Europa a favorecia, até 1950, altura em que a Europa decidiu, de uma vez por todas, livrar-se de regimes autoritários, após séculos de reis, imperadores e ditadores todo-poderosos. Porém, o que não de admite é que esses comentadores multiculturalistas que tanto bradam contra a Coca Cola em Riad e os filmes de Hollywood em Mogadíscio venham agora condenar o enforcamento do Saddam Hussein. Estamos a falar dos mesmos comentadores que defendem o direito das muçulmanos que vivem na Europa a usarem burqa, certo? Porque usar burqa faz parte dos usos e costumes dos países muçulmanos e da sharia. Tudo muito bem. Mas a lapidação de condenados à morte e a amputação de membros de pequenos criminosos também faz parte da sharia e dos usos e costumes dos países muçulmanos. E, claro, os enforcamentos como forma de pena de morte, como durante tantos anos se viu no Afeganistão taliban. Nesse caso, que direito tem o “prepotente” e “autista” Ocidente a censurar o enforcamento do Saddam Hussein e a exportar a noção europeia de Direitos Humanos ao Iraque? Porventura não fará parte dos usos e costumes islâmicos enforcar condenados à morte? Faz. Tanto – ou mais – que usar burqas. Clamam os multiculturalistas que a morte de Saddam Hussein, mais do que uma sentença, foi uma vingança xiita. Mas quem foi a luminbária que disse aos multiculturalistas que a sharia é uma forma de Justiça, comparável ao Direito Romano? Decepar a mão que o ladrão usou para roubar não é Justiça, é vingança. É olho por olho, dente por dente, mão por carteira. Esses são os usos e costumes dos países islâmicos, algo que aparentemente apenas agora chegou ao entendimento dos multiculturalistas. O espantoso não é que Saddam Hussein tenha sido enforcado. O espantoso é que não tenha sido linchado no campo de futebol de Bagdad. Mais espantoso ainda é que uma uma Europa que viu Benito Mussolini ser atado pelos pés numa praça, para ser esquartejado pela multidão ávida de sangue e que assistiu ao fuzilamento de Nicolae Ceausescu nas traseiras de um celeiro, após um julgamento no qual o próprio “advogado” de defesa pediu a pena de morte para o seu “cliente”, venha agora dar lições de moral aos EUA. Mas o que é que se espera de uma Europa que baseia a sua superioridade moral na Revolução Francesa, uma das maiores barbaridades cometidas na História e, sobre qualquer aspecto que se olhe para ela, um genocídio, com todas as letras?

novembro 18, 2006

Oh, Captain!, My Captain!

Diversos professores convenceram centenas de alunos do ensino a revezarem-nos na vigília em frente do Ministério da Educação, manifestando-se ruidosamente, o que suscitou enormes protestos da JS, que viu na iniciativa uma inaceitável instrumentalização dos alunos. Não estou a ver qual é o problema. Da maneira como vejo as coisas, os professores estão apenas a emular a carismática personagem do professor John Keating, interpretada pelo Robin Williams no "Dead Poets Society". No filme do Peter Weir. O John Keating abria os olhos aos seus alunos, retirando-os das académicas salas de aulas e levando-os a passear pelos jardins do colégio. Em Portugal, os alunos são levados a passear até ao jardim do Ministério da Educação. Quando esses professores abandonarem as suas escolas, certamente os alunos se colocarão em pé nas suas carteiras, em sentida homenagem aos seus role models.

novembro 16, 2006

O que o PSD e o PS querem ser, quando forem grandes:

Pedro Santana Lopes publicou mais uma obra laudatória, “Percepções e Realidade”, que provoca mais uma discussão sobre os méritos e defeitos do homem. Para os seus apoiantes, Santana Lopes é a lufada de ar fresco numa política dominada por pessoas como o Jorge Coelhos e o Marques Mendes, homens do aparelho. Para os seus detractores, Santana Lopes é o exemplo acabado do “homem do aparelho”, a pessoas que nunca fez mais nada na vida a não ser colar cartazes do PPD, primeiro, e do PSD, depois. O que é verdade. A minha questão é só uma: qual é o exactamente o problema em se ser um “homem do aparelho”? Cavaco Silva é um “homem do aparelho”, António Guterres é um “homem do aparelho”, Jorge Sampaio é um “homem do aparelho”, Durão Barroso é um “homem do aparelho”, José Sócrates é um “homem do aparelho”, Mário Soares apenas não é um “homem do aparelho” porque Mário Soares criou o aparelho socialista. Desde o 25 de Abril, Portugal foi governado por “homens do aparelho”, à excepção de Francisco Sá Carneiro. Mas Sá Carneiro morreu jovem e não se pode, em propriedade, afirmar o que seria Portugal ou o PSD se ele não tivesse embarcado naquele avião. Ramalho Eanes, sem dúvida alguma, não era um “homem do aparelho”. E isso foi bom? Duvido. Foi essencial na transição de Portugal para a democracia, sem senhor. Mas politicamente foi uma nódoa. Deixou-se tentar pelo mítico “partido presidencialista”, o PRD, e foi o que se viu. Abriu caminho ao “homem do aparelho” Cavaco Silva. De cada vez que se temos eleições, volta à baila a suposta necessidade de vir “gente de fora”, “pessoas que não sejam políticos profissionais” e semelhantes delírios. Qualquer pessoa de bom sendo sorriria se o BPI nomeasse para CEO uma “pessoa de fora”, um cozinheiro, digamos, por muita boa pessoa que fosse. Basta lembrar o que aconteceu com a Selecção Nacional em 1986, no Mundial do México, quando abdicámos de levar um treinador para levarmos quatro pessoas “de fora do futebol”, muito bem intencionadas, engenheiros e etc, para conduzir a equipa. Para se exercer o que quer que seja, é necessário experiência e formação técnica. A política não é uma excepção, antes pelo contrário. Não adiante de nada termos pessoas bem intencionadas se não souberem dominar, precisamente, os aparelhos. O resultado, nesses casos, é apenas um, inexorável: perderem as eleições. E sem se estar no Poder, não existem reformas. A não ser, claro, através de golpes de Estado. O José Maria Aznar, lembro, é um “homem do aparelho”. O Felipe González também era. O Tony Blair é um “homem do aparelho”. A Margareth Thatcher também era. Tal como Helmut Kohl, Willie Brandt, François Mitterrand. Os aparelhos políticos são, no fundo, como as escolas de futebol dos clubes. Sem elas, não aparecem jogadores como Paulo Futre, Luís Figo, Jorge Costa, Vítor Baía, Ricardo Quaresma, Cristiano Ronaldo, etc. O problema de Portugal é que as escolas dos nossos partidos não conseguem produzir craques, como fazem os clubes. Infelizmente, ao contrário do que acontece no futebol, os partidos políticos não podem contratar jovens como o Deco ou o Anderson (a simples ideia de contratar políticos no Brasil causa arrepios, convenhamos). Que os aparelhos apenas consigam produzir pessoas como José Sócrates ou Santana Lopes, diz mais sobre os aparelhos do que sobre as pessoas em questão. O problema de Portugal é que, quando precisaríamos que o PSD e o PS produzissem um Luís Figo, apenas nos oferecem Custódios.
Piazzolla com piercing

No final deste mês, tocam em Portugal os Gotan Project. Devem saber do que falo: uma banda francesa, composta por Phillip Solal, Cristoph Müller e Eduardo Makaroff, que ganharam fama internacional por “modernizar” o tango. Sinceramente, detesto os Gotan Project. Como não suporto a Mízia ou os Madredeus, exemplos acabados da tendência pós-moderna, nascida nos anos 90, que se limita a pegar em músicas tradicionais e juntar-lhes uns toques de electrónica e cosmopolitismo, receita infalível para serem servidos nas pistas de dança de Ibiza e do Lux e nos computadores dos publicitários. Esta tendência, como é óbvio, não se limita à música. Os mesmos adeptos destes “projectos” (nome apropriado, pois cada vez há menos bandas, na real e genuína acepção da palavra, mas “projectos”, construídos em laboratório com um objectivo definido, como o próprio nome indica) idolatram fraudes como o Quentin Tarantino, que fez uma carreira no cinema limitando-se a pegar em referências dos anos 60 (Sam Peckinpah, Arthur Penn, Samuel Fuller, etc, que já de si tinham aplicado a mesma receita “pós-moderna” a John Ford e Howard Hawks), baralhar e dar de novo. Para não falar do Dogma 95, com o Lard von Trier e o Thomas Vinterberg a fazerem, filme após filme, uma coisas que se poderia definir como Ingmar Bergman filmado por um daqueles adolescentes que descarregam vídeos no YouTube. Na literatura, temos os Bret Easton Ellis e os Jonathan Frazen (ainda assim, muito superior ao irritante “novo Tom Wolfe”). Na política, temos o Bloco de Esquerda, mas sobre isso é bom nem falar. Quando falham a imaginação, o talento, o sentido de tragédia, a profundidade e a inteligência, fazem-se “projectos”. Daqui a uma década, vai-se pegar nos “projectos” dos anos 90 e fazer “projectos” sobre os “projectos”. De cada vez que sai um álbum dos Gotan Project, mais me apetece ouvir Ramones.

Dulcia non meruit qui non gustavit amara

Morreu, na semana passada, William Styron. Inconstante, é certo, mas com uma noção de tragédia que poucos romancistas alcançaram no século findado. Desde obras de génio, como Lie Down in Darkness ou Set This House on Fire (para mim, um dos melhores romances da segunda metade do século XX), até ao pungente, mas sempre lúcido Darkness Visible: A Memoir of Madness (juntamente com a última obra de Harold Brodkey, This Wild Darkness: The Story of my Death, um impressionante relato, na primeira pessoa, da desagregação pessoal, dois testemunhos bem mais interessantes, porque mais honestos, do que as últimas ficções sobre o mesmo tema do Philip Roth), William Styron sempre me espantou pela sua coragem narrativa, a total falta de receio de arriscar uma frase, um parágrafo que, um adjectivo a mais, seriam redundantes ou barrocos. No fundo, William Styron foi um António Lobo Antunes; só que que bom. Cada vez há menos escritores como William Styron, que não têm medo de enfrentar grandes as grandes questões humanas: amor, morte, honra, amizade, traição, responsabilidade individual, dever social. Styron, como Shakespeare, falou sobre o Homem. E por isso é intemporal. Muito depois dos contos sobre a classe média suburbana de um John Updike terem sido esquecidas, pessoas inteligentes continuarão a admirar os romances de William Styron. Paul Bowles está morto, Richard Yates está morto, Evelyn Waugh está morto, Anthony Powell está morto, William Styron está morto. A literatura, infelizmente, está entregue a fanáticos sobrevalorizados como Thomas Pynchon. Desde a semana passada, o mundo é um local muito, muito mais pobre.

novembro 09, 2006

Meu Deus, não vejo nada!!!

O súbito arrefecimento das temperaturas na Renânia do Norte-Vestefália, na Alemanha, provocou esta semana um corte no fornecimento de energia que afectou vários países da Europa Ocidental, principalmente em Franla, mas também nalgumas zonas de Portugal. E como a Électricité de France concluiu que “não se esteve longe de um apagão a nível europeu”, vou ensinar os leitores a reagirem com calma a semelhante possibilidade.

- Estacione o seu automóvel à porta de casa e acenda os máximos. Este truque funciona, desde que a sua família consiga fazer tudo – cozinhar, dormir, necessidades, etc – no corredor. Se os ingleses conseguiram fazê-lo nos túneis do metropolitano de Londres, você também consegue;
- Por falar nisso, refugie-se nos túneis do Metro de Lisboa. Mas não entre na estação do Rossio, a não ser que saiba nadar muito bem. Uma vez nos túneis, peça conselhos de sobrevivência aos sem-abrigo que lá pernoitam constantemente. Não apenas pode aprender dicas valiosas como ajuda a elevar a auto-estima daqueles. Lembre-se: um sem-abrigo não quer o seu dinheiro, apenas quer o seu respeito (ou pelo menos é o que garantem as campanhas publicitárias);
- Acenda um Zippo em sua casa. Isto pode fazê-lo sentir-se um marine, mas resista à tentação de incendiar a garagem do seu vizinho. Por muito que se sinta um GI Joe, você não está no Vietnam.
- Por muito que admire a vida do Ernest Hemingway, não entre em desespero com a escuridão que o rodeia e espalhe os seus miolos pela parede da sala. Até porque não seria justo para com a sua mulher descer do quarto e, no meio do breu, pisar coisas esponjosas que ela poderia confundir com os restos da salada russa que comeram ao jantar;
- Dizem que Deus é luz. Caso seja ateu, converta-se ao cristianismo, judaísmo ou islamismo. Talvez valha a pena converter-se ao budismo. Apesar de os budistas não dizerem que Deus é luz, dizem que Deus é todas as coisas, pelo que, tecnicamente, para os budistas, Deus pode ser um gerador;
- Caso viva perto da fronteira com a Espanha, mergulhe toda a sua família, qual João Baptista, no Tejo, no Douro ou no Guadiana. Como as águas estão infestadas com lixo radioactivo, todos vocês vão brilhar mais do que o colecte reflector que, como bom foleiro que é, você tem pendurado no banco do lado do seu automóvel.
Oh, Paris, Paris!...

Depois do apagão da semana passada, Nicolas Sarkosy foi obrigado a reavaliar a importância social dos imigrantes de segunda geração, vulgo “escumalha”. “Quando Paris ficou completamente no breu, como a pele de um imigrante sudanês, foram as dezenas de automóveis e autocarros incendiados pelos filhos dos árabes que mantiveram Paris verdadeiramente ‘a Cidade da Luz’. Com tantas chamas em quase todos os quartiers, muitos parisienses nem sequer notaram que tinha havido um apagão. Finalmente descobri a utilidade da escumalha em França. Podem servir como uma espécie de gerador das nossas principais cidades”, concluiu o politico conservador.

novembro 03, 2006

O futuro presidente dos EUA

Quando a popularidade do George W. Bush cai mais do que as acções da ENRON, eis que os democratas tropeçam num dilema: segundo todas as sondagens, os dois candidatos liberais com mais possibilidades de conquistarem a Casa Branca são o senador Barack Obama, do Illinois, e Hillary Clinton, senadora de Nova Iorque. Ou seja, uma mulher e um negro. Durante anos os norte-americanos discutiram a possibilidade de terem, como presidente, alguém que não fosse um homem WASP (a mera existência de presidentes católicos é considerado como algo progressivo). Agora, a ficção dos filmes de Hollywood passa para a realidade e os democratas terão de escolher entre uma mulher WASP e um negro educado em Harvard (pior que tudo, entre dois advogados). O machismo suplantará o racismo? O racismo suplantará o machismo? Não sei. O mais provável é que o Partido Republicano suplante qualquer dos candidatos, caso apresente John McCain, como deveria ter feito nas últimas eleições (a diferença de qualidade, coragem e conhecimento de política mundial entre o antigo astronauta e o antigo alcoólico é enorme, semelhante à diferença de aspecto entre a Laura Bush e a Christy Turlington). Isto porque, para ganhar a Casa Branca, é necessário conquistar o centro eleitoral. E o centro eleitoral, constituído pelo norte-americano comum, o mesmo que elegeu o Arnold Schwarzenegger na Califórnia e o Jesse “Yhe Body” Ventura no Minnesota, um ex-Mister Mundo e um ex-wrestler, não vê com bons olhos ser representado por uma mulher ou por um negro. Triste? Talvez. Mas é assim mesmo.
Ainda assim, estou em crer que os norte-americanos sempre se inclinariam mais para um voto na Hillary Clinton – uma advogada liberal de Nova Iorque, conhecida por ter colhões de aço, ao estilo Margaret Thatcher – do que um negro activista dos Direitos Civis. Por um lado, desde que a popularidade de George W. Bush se esfumou, existe uma onda de revivalismo pelo ex-presidente Bill Clinton, a quem os norte-americanos já perdoaram os fellatios da Sala Oval, olhando com saudosismo para o período de paz e prosperidade económica da era Clinton (a real influência do presidente nessa conjuntura é duvidosa, mas ninguém quer saber disso; mas é compreensível, pois entre um presidente que quase não sabe falar, como George W. Bush, e um presidente que sabia literalmente de cor o The Sound And The Fury, do Faulkner, a escolha é óbvia). Por essa razão, porque os norte-americanos se sentem em dívida para com Bill Clinton, pela maneira como foi enxovalhado pelo Kenneth Star, a eleição da mulher do antigo presidente serviria, assim, para compensar Bill Clinton. Quanto a Barack Obama, para além de se assemelhar foneticamente com Osama, é negro e é activista, o que significa que tentaria compreensivelmente reformar o welfare norte-americano e transformar o Estado, tornando mais assistencialista, algo que os norte-americano comum, férreo defensor do individualismo e da responsabilidade pessoal (em resumo, do american way of life), pouco menos que despreza. Contra Barack Obama estão ainda as estatísticas e a raça. Ao contrário do que se possa pensar, não será por causa dos brancos que Barack Obama não será eleito. Isso acontecerá – num país em que os negros representas pouco mais de 12% da população e os hispânicos quase 30% - por causa das restantes minorias. O politicamente correcto é um privilégio e um luxo das classes altas. Os WASP não se importariam assim tanto em serem governados por uma espécie de Denzel Washington, a imagem que Barack Obama transmite de si mesmo, afastando-se do estilo ressabiado de um Spike Lee. Mas os hispânicos nunca o aceitariam. Nem os judeus, essenciais na recolha de fundos no Partido Democrático. Os primeiros jogam com o número de votos, os segundos jogam com a influência política e o dinheiro. Quanto aos fly-over states, os EUA rural, essenciais para se ganhar qualquer eleição, não querem nem um negro, nem uma mulher. Querem o John McCain. Ponto. Pessoalmente, acho que estes dois nomes lançados pelos democratas não passam de manobras de diversão, enquanto não escolhem um candidato masculino, caucasiano e WASP. Estivesse John F. Kennedy Jr vivo e, acreditem, a questão do candidato estaria resolvida. Mas à falta do JJ, os democratas estão condenados a encontrarem um contra-ponto ao corajoso e moderado John McCain. E nunca se pode esquecer que, para os norte-americanos, os EUA estão em guerra contra o terrorismo. E o John McCain é militar condecorado, convém não esquecer. Porém, os democratas sabem que não podem escolher uma réplica do John McCain, outro militar. A experiência com o John Kerry foi pouco menos do que catastrófica. Postas assim as coisas, o que esperar? Dos democratas? Nada. Dos republicanos? Que finalmente tenham a coragem e o bom senso de colocarem o John McCain na Casa Branca. Qualquer outro cenário não passa do guião de uma qualquer série da NBC.

novembro 02, 2006

Mullah Ribeiro e Castro

José Ribeiro e Castro começou a acertar os detalhes da campanha do “NÃO” no referendo do aborto, reunindo-se na sede da Federação Portuguesa pela Vida com as mais de 20 associações pró-vida. Para mim, Ribeiro e Casto não deve cair no erro de emular, Paulo Portas, que criou ou ajudou a criar vários movimentos pró-vida. Pelo contrário, deve apostar no modus operandis da al-Qaeda, afirmando meia dúzia de princípios conservadores e depois deixando que os apoiantes pró-vida criem as suas próprias células e delineiem, sem a sua interferência directa, mas com o seu exemplo nas mentes, as melhores maneiras de lutar contra os infiéis que querem matar fetos, à semelhança da célula de Rabat, que organizou os atentados de Madrid sem autorização ou conhecimento da al-Qaeda, mas seguindo o exemplo de Osama bin Laden. Os movimentos pró-vida poderiam assim realizar as iniciativas que bem entendessem e o Ribeiro e Castro limitar-se-ia a reivindicar a autoria moral dos acto na Rádio Renascença, tal como o Osama bin Ladem faz na Al-Jazzera, de maneira a encher os corações dos infiéis de terror. Para além disso, Ribeiro e Castro deveria pugnar por uma terceira possibilidade de resposta no referendo, podendo os portugueses assim escolher entre "SIM", "NÃO" e "NO FUCKING WAY".
AS ESCOLHAS DO PROFESSOR ELIAS

A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, considerou que os rankings das escolas, publicados por vários jornais, seriam “pobres”, uma vez que, segundo ela, é necessário fazer avaliações que tenham como critério mais do que os meros resultados dos exames. Seguindo o exemplo científico da ministra, divulgo agora os critérios utilizados para analisar cada ministério, para lá das meras notas atribuídas pelo professor Marcelo Rebelo de Sousa aos respectivos ministros, tendo em vista a elaboração de um futuro ranking ministerial.

Critérios de análise da actuação do Ministério da Administração Interna
O número de polícias assassinados na Amadora em 2006; a data de fabrico das armas da PSP, antes ou depois da II Guerra Mundial; o número de imigrantes ilegais actualmente escondidos nos contentores do Porto de Lisboa; o nível de agressividade de António Costa para com os autarcas nacionais; a quantidade de e-mails trocados entre o SIS e a PJ; a celeridade na naturalização de bons jogadores brasileiros a actuar no campeonato nacional.

Critérios de análise da actuação do Ministério dos Negócios Estrangeiros
A quantidade de países que não nos declararam guerra em 2006 devido à diplomacia dos nossos embaixadores; o esforço de “diplomacia económica” feito pelos nossos embaixadores; a quantidade de notícias favoráveis a Portugal nos jornais estrangeiros; a gravidade da lesão de Freitas do Amaral, causada pelo esforço de ser MNE.

Critérios de análise da actuação do Ministério das Finanças e da Administração Pública
A capacidade de apurar com rigor a quantidade de funcionários públicos que afinal de contas existem em Portugal; a quantidade de insultos dirigidos pelos funcionários públicos aos utentes das variadas repartições; os anos que os directores gerais da Administração Pública necessitam para se reformarem com valores acima dos 5000 euros.

Critérios de análise da actuação do Ministério da Defesa Nacional
A quantidade pontes, viadutos, esgotos e aquedutos construídos por militares portugueses em zonas de crise mundial; a capacidade de Portugal construir uma bomba atómica em menos de 2 anos; a capacidade dos veículos anfíbios do exército se deslocarem tanto nos quartéis como nas oficinas; o plano de emergência de resposta a uma invasão espanhola.

Critérios de análise da actuação do Ministério da Justiça
A quantidade de arguidos do Processo Casa Pia ainda em liberdade; a quantidade de ratazanas em cada tribunal de Primeira Estância; a altura das pilhas de processos que se acumulam nos tribunais; as décadas que cada suspeito passa em prisão preventiva antes de ser informado do crime do qual é acusado; os segundos que Vale e Azevedo passa fora da cadeia, antes de ser novamente detido.

Critérios de análise da actuação do Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional
Os metros de praias algarvias que ainda não têm um Hotel Íbis; a quantidade de exemplares de espécies protegidas abatidos a tiro nas coutadas nacionais; o nível de radiação dos nossos rios; a comparação entre as nossas regiões e a Baviera e a Catalunha.

Critérios de análise da actuação do Ministério da Economia e da Inovação
A altura exacta – medida em dias, minutos e segundos – em que vai acabar a crise e começar a retoma.

Critérios de análise da actuação do Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas
A quantidade de anos que ainda nos sobram para podermos comer bacalhau na consoada; a quantidade de antibióticos presentes nas vacas portuguesas; a quantidade de coberturas alarmistas da TVI aos fogos nas nossas florestas em 2006; a quantidade de plantações que cultivam milho transgénico, cujos grãos se transformam automaticamente, assim que aquecidos no microondas, em pipocas com sabor a laranja.

Critérios de análise da actuação do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações
A quantidade de paragens que vai ter o TGV: 10, 20, 30 ou 57; a quantidade de pardais electrocutados nos fios de alta tensão espalhados pelo país; a quantidade de países que Mário Lino acredita compartilharem com Portugal uma mesma Língua.

Critérios de análise da actuação do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social
A quantidade de trabalhadores que não têm um poster do Karl Marx no quarto que a CGTP consegue mobilizar para as suas manifestações; a subida do nível médio de vida na Roménia e na China.

Critérios de análise da actuação do Ministério da Saúde
A quantidade de doenças contraídas por um paciente que se desloque a um hospital público para curar uma constipação; a quantidade de hipotecas que cada utente do SNS tem de fazer para poder ficar internado 7 dias num hospital público; a percentagem do salário que cada português gasta par manter a ADSE.

Critérios de análise da actuação do Ministério da Educação
A quantidade de alunos portugueses que sabem calcular o troco que receberão se pagarem um café com uma moeda de um euro.

Critérios de análise da actuação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
A quantidade de galáxias descobertas por investigadores nacionais; a quantidade de cérebros e fígados nacionais que vão para o estrangeiro por ano; a quantidade de anos que faltam para Portugal colocar um português, de preferência o Francisco Louça, na lua.

Critérios de análise da actuação do Ministério da Cultura
A quantidade de teatros ocupados por companhias de teatro contemporâneas; a duração do novo filme de Manoel de Oliveira, tendo em conta o ratio entre cada minuto e os milhões de euros dos contribuintes oferecido pelo ICCAM ao cineasta; a quantidade de benefícios fiscais oferecidos ao Joe Berardo e quantos milhões de euros mais ele vai poder gastar, em virtude do acordo feito com o MC, com seu American Express.

Presidência do Conselho de Ministros
A quantidade de vezes que o salário de Pedro Silva Pereira foi multiplicado no Orçamento de Estado para 2007.
Nove semanas e meia

A questão do aborto é como uma doenças endémica: quando pensamos que acabou, eis que surge novamente. O que mais espanta neste país amorfo é que os portugueses recusam-se a debater a economia, o terrorismo, a imigração, a Europa, a nova ordem mundial. Mas quando a questão é definir as semanas necessárias para um embrião ser considerado um ser consciente, aí todos os portugueses, desde a peixeira ao tasqueiro, se metamorfoseiam em escolásticos e é vê-los esgrimir, quais Santo Agostinho, argumentos éticos e ontológicos. Um debate sobre o aborto é impossível por muitas razões. Antes de mais, por todos partem de um pressuposto politicamente correcto: “aqui ninguém é a favor do aborto”. Por uma vez, gostaria de ouvir alguém dizer “as mulheres não devem apenas ser criminalizadas, como devem arder nas chamas eternas do Inferno”. E alguém contra-argumentar “apenas as mulheres mandam no seu corpo; não há diferença entre um aborto e um piercing”. Aí sim, as águas estariam separadas. Em vez disso, debate-se o número de semanas necessárias para se considerar o embrião um ser vivo. Mas quais são os critérios para definir quando um embrião merece protecção legal? Quando dá o primeiro pontapé, qual Katsouranis, na barriga da mãe? Quando pesa mais do que um pacote de manteiga UCAL? Quando começa a gostar dos Divine Comedy? A confusão é tal que os movimentos pró-vida chegam a utilizar argumentos económicos, como a necessidade de aumentar a natalidade para sustentar a Segurança Social. Um embrião merece protecção, não porque carregue uma centelha divina, mas porque é um pagador de impostos em potência. Quem decidia quando começa a vida era o Papa. Agora é o Teixeira dos Santos. Há 30 anos, os pais esperavam até que os filhos fizessem 10 ou 11 anos para trabalharem e ajudarem economicamente a família. Agora a pressão começa logo nas 10 ou 11 semanas. A questão, como se pode ver, é espinhosa. Mas, antes de mais, convém esclarecer algo: aqui ninguém é a favor do aborto.

outubro 26, 2006

Há coisas fantásticas, não há?


O Madrid ganhou ao Barcelona no Bernabéu. Os culés pareciam baratas tontas, atrás do Robinho. Até o Raúl marcou um golo, o que hoje em dia equivale ao Lobo Antunes escrever um bom livro. O dentuças não jogou nada. O Laporta comeu e calou. Há dias assim, bonitos.
Pela primeira vez na vida, apelo ao voto no Fernando Rosas!


Entrei a semana passada numa demanda de importância transcendente: encontrar o pior português de todos os tempos. Há escória para todos os gostos. Podem ver a minha opinião sobre o assunto no Inimigo Público e até votar no blogue criado para o efeito. Isto é o que eu chamo serviço público.

outubro 10, 2006

"Hey, Donald, wanna get... dirty?"


O congressista republicano Mark Foley está metido em sarilhos, após se saber que o homem assediava sexualmente os chamados "pajens internos", os estudantes do secundário que fazem recados no Congresso norte-americano. Sinceramente, fico satisfeito com este caso, porque veio trazer duas novidades. Primeiro, que existe um republicano que faz sexo. Segundo, porque existe um republicano que faz sexo sem fins meramente reprodutivos. Isto é o que se chama tentar cativar o centro.

outubro 07, 2006

When the end comes I know, there was just a gigolo, life goes on without me...

Zezé Camarinha está a acusar o final da época balnear e, segundo as minhas fontes algarvias, terá sido surpreendido esta madrugada numa situação embaraçosa pelas autoridades competentes (não sendo a palavra competentes usada como adjectivo, obviamente), quando o encontraram em pleno coito com uma lata vazia de Guiness. Zezé Camarinha terá sido rapidamente levado para a esquadra, onde explicou que aquela situação correspondia ao seu padrão habitual, pois a lata “era inglesa, cheirava a cerveja e tinha um buraco”.

outubro 06, 2006

Sempre podem enfiar o saco do Expresso...

Estou muito preocupado com a saúde pública portuguesa em geral e com os resultados dos inquéritos aos conhecimentos sobre o HIV em particular. Por isso, vou agora didacticamente ensinar os mais homens portugueses que me possam estar a ler sobre os diversos preservativos existentes no mercado e qual o ideal para cada pessoa.


PRESERVATIVOS RETARDANTES
Mais grossos, com menos sensibilidade, servem para aqueles homens que não se conseguem controlar e têm um orgasmo quando ouvem qualquer palavra feminina, como “casa” ou “jarra”. Os preservativos retardantes podem ser substituídos, devendo para tal o homem pensar, durante o acto sexual, em assuntos profundamente deprimentes e chocantes. Nos casos mais graves, aconselha-se pensar no défice português avançado pela Comissão Constâncio. Mas cuidado, não deve pensar no défice mais do que o ministro das Finanças, (a saber, de dois em dois minutos), caso contrário pode causar impotência permanente.



PRESERVATIVO XL
Os preservativos Extra Large servem o mesmo propósito do que os porta-chaves da Porsche ou da BMW. O método é o mesmo e de certeza que você o conhece. Apesar de ter um Fiat Uno em segunda-mão, compra um porta-chaves da Mercedes num quiosque e deixa-o displicentemente ao lado do seu Cutty Sark com água mineral, para que a rapariga que está a tentar engatar note e fique impressionada. Depois basta dizer que bebeu demais e que devia mesmo levá-la para sua casa de táxi, matando dois coelhos de uma cajadada. Não apenas ela fica a pensar que você é um jovem yuppie, como que você é uma pessoa responsável. Com os preservativos XL passa-se o mesmo. Você apenas precisa de deixar cair do bolso das calças, como quem não quer a coisa, um preservativo XL, certificando-se que a rapariga o vê. Depois, na escuridão do seu quarto, coloque um dos preservativos retardantes que costuma usar e pense no défice ou na Maria Teresa Horta.

PRESERVATIVO SENSITIVE
Os preservativos Sensitive são extra-finos, sendo normalmente bastante apreciados por pessoas que gostam de desportos radicais, uma vez que, com os preservativos Sensitive você sente toda a emoção de estar a escassos micro-milímetros do vírus do HIV e da Hepatite C, mas sabendo que está em total segurança, como no bungee-jumping. Os mais radicais costumam usar preservativos Sensitive fora do prazo de validade, para a sensação de risco e a descarga de adrenalina serem ainda maiores.





PRESERVATIVOS COM SABORES
Apesar de parecer uma boa ideia, lembre-se que preservativos com sabor a diferentes frutas é um convite a que a sua namorada queira fazer um gang bang, para saborear um salada de frutas.





PRESERVATIVOS COM ESTRIAS
Os preservativos com estrias servem, ao que parece, para aumentar o prazer da sua namorada e/ou mulher. Isso é tudo muito bonito. Mas se quiser realmente aumentar o prazer da sua namorada, sugerimos antes uma operação plástica ou uma bomba de vácuo.



PRESERVATIVOS VINTAGE
Obviamente, não estamos a falar em preservativos em segunda-mão e se você estava com esperanças que fosse esse o tema, sugiro alguma terapia. Os preservativos Vintage são manufacturados conforme os preceitos antigos, devendo ser portanto muito apreciados por manifestantes anti-globalização. Dê uma na sua namorada como o Casanova deu várias nas suas amantes, portanto. Use um preservativo Vintage feito de pele de ovelha. Mas lembre-se, primeiro mata-se a ovelha e tira-se a pele. Usar uma ovelha viva não faz com que ela esteja a usar uma espécie de diafragma Vintage, se era essa a sua ideia.









OLHA MÃE, SEM PRESERVATIVO!
Muitas pessoas são alérgicas ao látex, tal como muitas pessoas são alérgicas ao marisco. No entanto, poucas pessoas fizeram ambas as descobertas ao mesmo tempo. Se não gosta de usar preservativo e portanto aprecia filmes do Kurt Reynolds, tenha em consideração que o chantilly, por muito que você tente convencer a sua namorada, não o protege de doenças sexualmente transmissíveis.
O Público tem uma secção intitulada “A Minha Rua Tem o Nome de um Deputado”, onde se explica quem foram esses deputados à Assembleia da República cujos nomes emporcalham as nossas ruas e pracetas. Decidi por isso alargar o universo de homenageados e abrir a iniciativa a outros portugueses que se evidenciaram, sem nunca terem colocado os pés nos Passos Perdidos.


A MINHA RUA TEM O NOME DE UM FACÍNORA DO ANTIGO REGIME
















Avenida António Rosa Casaco, Santa Comba Dão


António Rosa Casaco
1915-2006


António Rosa Casaco foi um agente da PIDE-DGS, a Polícia Internacional de Defesa do Estado criada por António de Oliveira Salazar, tendo mesmo, tal a sua impecável folha de serviço, chefiado a brigada que assassinou o General Humberto Delgado perto de Badajoz, no exacto local onde hoje em dia se encontra a peixaria El Corte Inglês, sendo que a cova, feita por Rosa Casaco, se encontra entre a última corvina a contar da esquerda e o primeiro sargo a contar da direita. António Rosa Casaco nasceu em Abrantes, a 1 de Março de 1915, poucos depois de nascer Kaúlza de Arriaga (que nunca mais falaria a Rosa Casaco, depois de este lhe ter dado a ideia da infame “Operação Nó Górdio”, em Moçambique, durante a guerra do Ultramar, que resultaria num enorme fracasso para o exército português, comprado apenas ao fracasso da peça “Ora Toma Lá Que Já Comeste, Pidesco”, que resultou no degredo temporário de Vasco Santana pata o Tarrafal). Rosa Casaco nasceu numa família humilde, tendo apenas visto pela primeira vez carne aos 19 anos, razão pela qual a odiava e, sempre que conseguia, a dissolvia em cal viva. Rosa Casaco integrou a PIDE-DGS em 1938, depois de ter sido recusado pela Comédie-Française, onde sonhava encenar Moliére. Em poucos anos tornar-se-ia subdirector da instituição, depois de ter sido sua ideia de arrancar os olhos com umas tenazes a um então desconhecido Álvaro Cunhal, algo considerado visionário por Salazar e que lhe valeu a promoção e uma casa-de-banho própria nas instalações da António Maria Cardoso. Rosa Casaco era por isso conhecido como “ o menino bonito de Salazar”, o que muito honrava. Já quando passou a ser conhecido como “a puta do Caetano”, não achou porém tanta piada. Depois do 25 de Abril, que o apanhou de calças na mão, exilou-se em Espanha (de onde saiu após um diferendo azedo com o toureiro Luis Ordoñez sobre o melhor tempero para marinar testículos dos touros) e, mais tarde, no Brasil, onde inspiraria a personagem “sinhozinho Malta”, na telenovela “Roque Santeiro”. Apesar de ter vários mandatos de captura internacionais, Rosa Casaco chegou a passear-se na década de 90 pelos jardins de Belém, onde aproveitou para matar as saudades dos pastéis de Belém e do seu grande amigo Jorge Ritto, ao lado que quem passou a viver a partir de 2002, em Cascais, quando os mandados internacionais que pendiam sobre si prescreveram. Nos últimos dias da sua vida, Rosa Casaco aplicou todas as forças que lhe sobravam a combater aquilo que, no seu entender, representava a maior ameaça desde o comunismo e o ateísmo soviético: os “Morangos Com Açúcar” e a participação de Jorge Gabriel em programas desportivos. António Rosa Casaco morreu no início de Julho de 2006 e as suas últimas palavras foram “vão-se todos foder”. Na sua lápide está escrito “Aqui jaz António Rosa Casaco, inspector da PIDE extremoso, fascista convicto, para sempre na lembrança dos seus entes queridos e de Silva Resende”. A semana passada o seu nome foi atribuído à mais larga, comprida e nobre avenida de Santa Comba Dão, em homenagem aos seus feitos patrióticos, praticados com abnegação durante quase quatro décadas.
Out, out!!! You demons of stupidity!!!

Quando o mundo se incendeia por causa da religião, proponho o seguinte para alcançarmos paz na terra e harmonia entre os homens de boa vontade: abraçar o animismo, como ainda se faz em diversos países africanos. Se a raiz do problema reside no facto de três grandes religiões partilharem o mesmo Deus e basicamente os mesmos profetas, tendo sobre eles diferentes tradições, tabus e sentimentos de propriedade moral, a solução poderia estar na adoração de animais. Se, por exemplo, os cristão adorassem um chimpanzé, os judeus adorassem um koala e os muçulmanos adorassem um panda, cada um poderia representá-los como lhes desse na real gana, sem ofender as restantes religiões. E o problema terminava. A não ser, claro, que os árabes se sentissem ofendidos com o WWF, por representar um panda no logótipo da associação e começassem a incendiar as suas delegações em todo o mundo.

outubro 05, 2006

PEQUENO DICIONÁRIO
ILUSTRADO DE FILOSOFIA

Numa altura em que o Ministério da Educação decidiu, em mais uma ideia peregrina, retirar a disciplina de Filosofia dos exames nacionais de acesso ao ensino superior, deixo aqui alguns exemplos de grandes filósofos que, ao longo dos séculos, iluminaram e alargaram o conhecimento humano.


SÃO TOMÁS DE AQUINO

São Tomás de Aquino nasceu no século XIII, no castelo de Roccasecca, na Campânia, da família feudal dos condes de Aquino. Apesar de estar ligado às famílias reais de França, Sicília e Aragão, Tomás de Aquino cortou os laços com a sua influente família e abraçou a causa dos frades dominicanos, tal como os filhos das famílias bem da Lapa entram no Bloco de Esquerda. Tendo conquistado o respeito de toda a Igreja, como teólogo exemplar, Tomás de Aquino seria conhecido, ainda em vida, como Doctor Angelus, mas nunca gostou desse cognome, porque o fazia parecer uma personagem da Marvel.


AVERRÓIS

Averróis, grande filósofo árabe do século XII, nasceu em Córdoba, na altura província muçulmana, depois de os árabes terem invadido a Península Ibérica em busca de armas de destruição maciça. O seu nome era Abu al-Walid Muhammad Ibn Ahmad Ibn Munhammad Ibn Ruchd, mas não dava muito jeito às pessoas quando o chamavam na rua. Averróis foi, no seu tempo, o grande comentador de Aristóteles, como o Rui Santos é, no nosso tempo, o grande comentador do campeonato nacional.






ISAIAH BERLIN

Isaiah Berlin nasceu em Volshonok, tendo testemunhado dois acontecimentos marcantes na sua vida: a Revolução de Outubro de 1917 e a perda da virgindade da sua vizinha. Já professor em Oxford, foi confundido pelo Winston Churchill com o cantor norte-americano Irving Berlin, tendo insistido com o filósofo para cantar, com voz de cana rachada, Hooooooooooooo, come on and hear, come on and hear, Alexander’s Ragtime Band! Coooooooooooome on and hear, come on and hear, it’s the best band in the land!, tendo depois Churchill obrigado o autor da obra “Two Concepts of Liberty” a tocar e cantar o clássico White Christmas, apesar de ser Agosto e de Isaiah Berlin não saber tocar piano.




FRIEDRICH NIETZSCHE

Friedrich Nietzsche, filósofo alemão, defendeu em obras como Über Wahrheit und Lüge im aussermoralischen Sinn (“Sobre a Verdade e a Mentira em Sentido Extra-Moral”), Ecce Homo (“Eis O Homem”) ou Also sprach Zarathustra (“Assim Falou Zaratustra”), o ateísmo e a superioridade do Homem perante qualquer código moral absoluto. Na obra póstuma Vom Einfluß der Würste im sexuellen Leben der Deutschen (“Da Influência das Salsichas na Vida Sexual dos Alemães”), Friedrich Nietzsche defendeu que a ingestão de salsichas de Viena era a causa da superioridade da raça ariana.
Portugueses pensam que o HIV se transmite através de livros


Os portugueses vão começar a serem alertados, através de uma campanha publicitária, para a necessidade de fazerem o teste de diagnóstico do HIV, no seguimento de um estudo que demonstra que a maioria dos portugueses ainda desconhece as verdadeiras causas da doença. Entre outras coisas, a campanha tentará explicar aos portugueses que, ao contrário do que julgam, engolir esperma não cura dores de garganta.

Desde que não clonem o Luís Fazenda, be my guest...



Uma nova pesquisa realizada nos EUA pelos investigadores Xiangzhong Yang e Tao Cheng, publicada na revista de divulgação científica “Nature Genetics”, revela que para se proceder à clonagem de animais não são necessárias, como se pensava até agora, células-tronco. Na realidade, tudo o que é necessário para se proceder à clonagem de animais é uma total ausência de escrúpulos morais e um desprezo autista pelas consequências práticas das descobertas científicas, conclui o estudo.
Blow my whistle, stranger!


Esta semana o Ministério Público descobriu que diversos objectos oferecidos por dirigentes desportivos aos árbitros eram, na realidade, feitos de ouro falso. No âmbito da mesma investigação, o Ministério Público descobriu ainda que muitas das prostitutas oferecidas pelos dirigentes desportivos aos árbitros eram, na realidade, travestis.
"Look, it's Harrison Ford, sun! Shoot him down, and do Thy will!"


Nos EUA, Charles Roberts, pai de três crianças, entrou numa escola amish, baleou dez raparigas, matou cinco e acabou por se suicidar. Respeitando as tradições dos amish, a caçadeira usada para o massacre foi construída por toda a comunidade.
O martelo de meretíssimo não serve apenas para encerrar audiências


O Tribunal de Macedo de Cavaleiros começou esta semana a julgar a indemnização pedida ao Instituto Piaget por Ana Sofia Damião, uma ex-aluna que se queixou das praxes em 2002 e que reclama quase 70 mil euros por danos morais e patrimoniais. Na sessão de abertura do processo, como era a primeira vez que Ana Sofia Damião entrava num tribunal, foi obrigada pelos advogados de defesa e de acusação a simular sexo oral com o juiz.
McDonald's abre restaurante na sede do IRA



Tony Blair, citando um relatório independente, garantiu esta semana que o IRA encerrou definitivamente as suas actividades paramilitares. Ao que parece, o Exército Republicano Irlandês não aguentou a concorrência de multinacionais como a Al-Qaeda, sendo assim mais um triste e paradigmático exemplo de como a globalização e as multinacionais do terror podem matar o terrorismo local.

There are more things in heaven and earth, Horatio, than Flying fucking Circus

Os humoristas portugueses costumam invariavelmente apontar como referências os Monty Python. Quando era pré-adolescente e assistia ao Monty Python’s Flying Circus também apreciava o humor do Idle, Cleese, Palin, Jones & Chapman. Quanto às animações do Terry Gilliam, sempre as achei insuportáveis. E continuo a achar. Acontece que a admiração pelos Python deve ser como o sarampo: algo que acontece na infância, cura-se e nunca mais volta. Do grupo, recordo meia dúzia de sketches que considero geniais, normalmente versando filosofia, literatura, cinema ou crítica social. Ingleses travestidos a beber chá, sinceramente, not my cup of tea. Para mais, procurar na televisão inspiração para o que quer que seja é sinal de analfabetismo. Querem humor inteligente? Vejam o Beyond the Fringe, a série criada pelo Peter Cook nos anos 60, muito antes dos Python, com o Jonatham Miller, o Alan Bennet e o Dudley Moore (exactamente, esse). Ou, claro, o mais recente The Office, do Ricky Gervais e do Stephen Merchant. Ou o inevitável Daily Show do John Stewart, na Comedy Central, verdadeiro repositório de inteligência e argúcia. Mas citar programas de televisão como referências, sinceramente, parece-me algo completamente infantil.
Cresci a rir com o Francisco de Quevedo e o Joseph Heller. Nada que alguma vez tenha sido escrito em televisão se pode comparar ao Historia de la Vida del Buscón Llamado Don Pablos - Ejemplo de Vagabundos y Espejo de Tacaños – a maior sátira da história da literatura - ou ao Catch 22, ao Something Happened e ao Good as Gold, monumentos literários do século XX. De cada vez que escrevo um sketch para televisão, leio uma página do Heller, não vejo um episódio do Seinfeld. Se quero olhar para um ecrã e encontrar humor inteligente (obviamente, todo o humor é um exercício de inteligência, caso contrário não passa de anedotas e Parque Mayer), revejo os filmes do Buster Keaton. Sei que isto pode parecer pedantismo, mas é assim mesmo. Por muito que aprecie o humor dos filmes do Bob Hope, um dos grandes génios da comédia do último século, que apenas o anti-americanismo primário dos europeus explica que não seja minimamente conhecido por cá a não ser como aquele velho que jogava golfe com o Ronald Reagan, prefiro mil vezes ler o I Never Left Home, o magnífico livro de crónicas que escreveu sobre o tempo que passou a animar as tropas norte-americanas durante a II Guerra Mundial. Querem humor? Leiam o Straight Man, do Richard Russo; Lucky Jim, do Kingsley Amis; Rumpole Rest His Case, do John Mortimer; Agents and Patients, do Anthony Powell. Ou, por exemplo, leiam o Thank You For Smoking do Christopher Buckley e depois vejam o filme que acaba de estrear, adaptando o romance. E vejam a diferença entre a obra literária e o filme. O primeiro é trufas, o segundo é pipocas. A cultura mediática em que vivemos estupidifica, não tenhamos dúvidas. Aprecio tanto ver televisão inteligente e bem escrita as the next guy. Aliás, hoje em dia é muito mais fácil encontrar ficção bem escrita e inteligente na televisão do que no cinema. Mas remeter o humor ao que se faz na televisão e no cinema é trágico.