outubro 05, 2006


There are more things in heaven and earth, Horatio, than Flying fucking Circus

Os humoristas portugueses costumam invariavelmente apontar como referências os Monty Python. Quando era pré-adolescente e assistia ao Monty Python’s Flying Circus também apreciava o humor do Idle, Cleese, Palin, Jones & Chapman. Quanto às animações do Terry Gilliam, sempre as achei insuportáveis. E continuo a achar. Acontece que a admiração pelos Python deve ser como o sarampo: algo que acontece na infância, cura-se e nunca mais volta. Do grupo, recordo meia dúzia de sketches que considero geniais, normalmente versando filosofia, literatura, cinema ou crítica social. Ingleses travestidos a beber chá, sinceramente, not my cup of tea. Para mais, procurar na televisão inspiração para o que quer que seja é sinal de analfabetismo. Querem humor inteligente? Vejam o Beyond the Fringe, a série criada pelo Peter Cook nos anos 60, muito antes dos Python, com o Jonatham Miller, o Alan Bennet e o Dudley Moore (exactamente, esse). Ou, claro, o mais recente The Office, do Ricky Gervais e do Stephen Merchant. Ou o inevitável Daily Show do John Stewart, na Comedy Central, verdadeiro repositório de inteligência e argúcia. Mas citar programas de televisão como referências, sinceramente, parece-me algo completamente infantil.
Cresci a rir com o Francisco de Quevedo e o Joseph Heller. Nada que alguma vez tenha sido escrito em televisão se pode comparar ao Historia de la Vida del Buscón Llamado Don Pablos - Ejemplo de Vagabundos y Espejo de Tacaños – a maior sátira da história da literatura - ou ao Catch 22, ao Something Happened e ao Good as Gold, monumentos literários do século XX. De cada vez que escrevo um sketch para televisão, leio uma página do Heller, não vejo um episódio do Seinfeld. Se quero olhar para um ecrã e encontrar humor inteligente (obviamente, todo o humor é um exercício de inteligência, caso contrário não passa de anedotas e Parque Mayer), revejo os filmes do Buster Keaton. Sei que isto pode parecer pedantismo, mas é assim mesmo. Por muito que aprecie o humor dos filmes do Bob Hope, um dos grandes génios da comédia do último século, que apenas o anti-americanismo primário dos europeus explica que não seja minimamente conhecido por cá a não ser como aquele velho que jogava golfe com o Ronald Reagan, prefiro mil vezes ler o I Never Left Home, o magnífico livro de crónicas que escreveu sobre o tempo que passou a animar as tropas norte-americanas durante a II Guerra Mundial. Querem humor? Leiam o Straight Man, do Richard Russo; Lucky Jim, do Kingsley Amis; Rumpole Rest His Case, do John Mortimer; Agents and Patients, do Anthony Powell. Ou, por exemplo, leiam o Thank You For Smoking do Christopher Buckley e depois vejam o filme que acaba de estrear, adaptando o romance. E vejam a diferença entre a obra literária e o filme. O primeiro é trufas, o segundo é pipocas. A cultura mediática em que vivemos estupidifica, não tenhamos dúvidas. Aprecio tanto ver televisão inteligente e bem escrita as the next guy. Aliás, hoje em dia é muito mais fácil encontrar ficção bem escrita e inteligente na televisão do que no cinema. Mas remeter o humor ao que se faz na televisão e no cinema é trágico.

10 comentários:

Anónimo disse...

Don Francisco de Quevedo y Villegas, Don Gonzalo Torrente Ballester, Don Camilo Jose Cela Trulock........

Anónimo disse...

Filomeno a mi pesar, el Rey pasmado, O acomodador e outras narracions

VE disse...

You got it!

filomeno2006 disse...
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filomeno2006 disse...
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filomeno2006 disse...
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Anónimo disse...

Noticias fabulosas sobre Quevedo; Chistes de Quevedo: ¡Qué vedo! ¡Qué vedo!.....¡Hasta por el culo me conocen!. Trenes sin lavabo.

Anónimo disse...

24 de diciembre de 2010: las tristes aventuras del buscón don pablos, por ignacio arellano ayuso

Anónimo disse...

don pablos de segovia, buscón
don francisco de quevedo, caballero de santiago

Anónimo disse...

richard peseux se creyó el chiste brutal